2026-03-31

Pastores, pastoreio, ovelhas, leite e queijo

Comecemos por assinalar que a ONU / FAO consagram 2026 como o “Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores” ou dos “Pastoralistas”. Para, também assim, afirmam, “sensibilizar e promover o valor das pastagens ​​e do pastoreio sustentável, bem como defender a necessidade de fortalecer ainda mais a capacidade do sector da pecuária pastoril e aumentar o investimento responsável neste sector”. Ora aí estão uns justos e meritosos objectivos da efeméride.

No caso dos Pastores e no enquadramento da nossa tradição “Serra da Estrela”, em Ovinos (ovelhas e cabras), o “amor” à sua actividade tem sido “temperado” com bastante suor e muito sacrifício desde há quatro ou cinco milénios. Quase sempre, no plano familiar, por muitos mais anos seguidos do que os sete mais sete anos do pastor Jacob que amava Raquel, serrana bela, filha de Labão, como vem no conhecido soneto de Camões.

 

Trabalho especializado. Ocupação permanente. Para quê?

Entretanto, a vida e o trabalho desta pastorícia, hoje ainda tradicional, não são exactamente coincidentes com a visão idílica dos poetas e outros românticos ainda que de grande talento. Sobretudo se tais trabalhos se prolongam pela produção de queijo e de requeijão que a manteiga de Ovelha, para venda, já lá vai. Agora, a grande parte dos Pastores não faz queijo, vende o leite, (actualmente anda acima dos 2 euros o litro, de Bordaleira) e há alguns Pastores que têm passado para a produção do Borrego (DOP ou não) que, afirmo, o Borrego de Ovelha Bordaleira, a fêmea de cor branca – a raça “autóctone” da Região, a que se juntam, apesar de tudo ainda de forma diferenciada, a Ovelha acastanhada, a “Sarrobeca”, e a Ovelha preta – a carne do Borrego, dizia, é das melhores carnes domésticas que conheço! Quanto ao “nosso” queijo, só não digo que é o melhor do mundo porque ainda os não provei a todos…

Na faina, pastorear o rebanho e tirar o leite às ovelhas é, por assim dizer, o “primeiro turno” do trabalho diário. E fazer queijo e requeijão (na época da respectiva produção) é o “segundo turno” diário que a “ferrada” (vasilhame com o leite ordenhado também ao fim da tarde ou início da noite) vem criar essa necessidade até se espremer e “embonecar” a massa (diária) do queijo, a “coalhada”, precipitada pelas enzimas coagulantes tradicionalmente extraídas da (bela) flor do cardo para isso macerada, agora também por sucedâneo químico, no caso fora do acesso à certificação do Queijo Serra da Estrela: colocar essa massa, agora em taças e antes nos “azinchos” que eram utensílios redondos de madeira ou metalizados próprios para escoar e formatar a massa do queijo (a “coalhada”), sendo que essa função no Requeijão é cometida ao “açafate”. Ou seja, nestes casos, é uma actividade contínua que praticamente vai desde as seis horas da manhã até às 23 da noite, com esta última fase assegurada mais pelas mulheres queijeiras. 

Pelo meio, há ainda que semear os prados que há já umas décadas que os Pastores e as Pastoras têm de manobrar os tractores nessa tarefa. Até há

adas atrás, os Pastores não praticavam a agricultura de “produção vegetal” sistematicamente. Agora, em geral, não há quem lhes prepare as Pastagens para eles assegurarem o “maneio” e a alimentação “natural” dos Rebanhos, ou seja, têm que ser eles e seus familiares a fazerem esse serviço de agricultores… A última “invenção” que lhes facilita um pouco a vida e o trabalho é o tal “pastor eléctrico”, quer dizer os fios eléctricos (de baixa voltagem) ligados a bateria, e que colocam a rodear um determinado pasto onde os animais permanecem sem saírem de lá que apanham (pequenos) choques eléctricos se o tentarem. Ressalva-se o cuidado especial com o “alfeire” (ou alfeiro), aquele conjunto de animais que deve ficar isolado do resto do rebanho e onde se mantêm as ovelhas prenhas ou com crias pequenas, isto no caso dos rebanhos da Região. E alguns Pastores já instalaram ordenhas mecanizadas junto ao ovil (curral ou “malhada”) o que também reduz dificuldades e tempo nas duas ordenhas diárias, mas aumenta os custos da exploração pecuária pois a mão de obra familiar, por norma, não é contabilizada enquanto que são caras as máquinas de ordenhar e a energia que as faz mover. Nos últimos anos, a Lã de Ovelha voltou a ter algum valor para o Pastor a vender, embora praticamente só pague o custo da Tosquia que os rebanhos devem fazer na Primavera por causa do calor atmosférico.

Pois, com o “pastor eléctrico” mesmo o Pastor “tradicional” não tem que estar permanentemente junto das suas Ovelhas que os Lobos também já os não há, embora muitos rebanhos continuem a ser acompanhados pelos corpulentos cães-pastores embora de hoje em dia aliviados das formidáveis coleiras metálicas eriçadas de bicos, coleiras supostamente destinadas a proteger o cachaço dos cães-pastores da dentada do lobo, quando este, na região, era (e era mesmo) o inimigo ancestral de ovelhas, cães e pessoas…

Porém, ao mesmo tempo, a transumância generalizada que se praticava entre um a dois meses no Verão – ida para a Serra dos Rebanhos (em enfeitados alavões) – já pouco se pratica pelo que as Ovelhas ficam “em casa” 365 dias no ano. Não, não, nestas lides exigentes não há tempo para férias…        

E também já por aqui caiu em desuso a pequena “choupana” de pastor, que este puxava e colocava no local onde o rebanho ficava parado mais tempo, e onde, lá dentro, o pastor descansava e até pernoitava. Todavia, os rebanhos continuam a “amorrar” à sombra, no pico do calor, com os animais deitados, “amorrados”, juntos, na Primavera e no Verão, com ou sem o tal “pastor eléctrico” montado. De antanho (e ainda agora), familiares costumavam levar, ao campo, o almoço ao pastor. Eram momentos de algum descanso, em que, bastas vezes, se juntavam homem e mulher e, assim, também se proporcionavam a esses casais de pastores ainda jovens, a troca de “quentes” intimidades que as noites eram demasiado curtas para isso… Estamos certos que, com frequência, nove meses depois desse dia, havia bebés a nascerem nesses casais de pastores… Avé!

 

Como atrair as novas gerações para a Pastorícia de tipo familiar?

Como consequências que convém evocar, um jovem a partir dos 16 ou 17 anos não pensará facilmente em querer vir a ser pastor e cuidar de rebanho. É que mesmo na sua aldeia, vê os amigos da mesma idade a saírem para lazer ou recreio ao fim de tarde, após qualquer actividade diária que tenham, enquanto que eles, pastores, vão continuar “presos” ao rebanho mais umas horas e durante todo o ano… E que jovem mulher, sobretudo se não vier de família de pastores, encara de vontade espontânea casar-se e constituir família com um pastor? É que se se puser a ver bem o caso, vai concluir que, casada com um pastor, vai assinar a passagem para uma vida trabalhosa, com diárias de umas 17 horas em actividade e durante grande parte do ano. E que depois irá encaixar o dia-a-dia do trabalho dito “doméstico”, incluindo com a filharada que venha… E os rendimentos, e os rendimentos de tamanha “canseira”?...  

De facto, é toda uma actividade que merece um rendimento bem maior do que aquele que normalmente obtém! Eis, pois, a grande questão: como assegurar mais rendimentos aos Pastores e Produtores de Queijo, e a suas Famílias?!

Enfim, as “ajudas” públicas dão uma ajuda mas não o suficiente, pelo menos para já. E as “Feiras” e “Festas” anuais a pretexto do Queijo da Serra, elas animam mas não resolvem. E o preço do Queijo, na produção, é bastante mais baixo que nos mercados instituídos. Conhecemos quem produza e venda Queijo Serra da Estrela certificado a 25 euros o quilo, e quem produza e venda Queijo de Ovelha curado a 20 euros o quilo. Esses Queijos podem chegar ao dobro do preço ao consumidor mais distante. Então que fazer?

 

Poderemos continuar este assunto em próximo artigo.

 

Março de 2026, no rescaldo de mais uma “Feira do Queijo da Serra”

 

Vila Franca da Beira (Oliveira do Hospital)

João Dinis