2026-03-24

ECVC alerta que o acordo comercial UE-Austrália põe em risco a soberania alimentar na Europa

Enquanto os agricultores europeus enfrentam uma crescente pressão económica e a instabilidade geopolítica se intensifica, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o Comissário para o Comércio, Valdis Dombrovskis, chegaram à Austrália para finalizar um acordo comercial que inclui sectores agrícolas sensíveis como o açúcar, a carne de bovino e a carne de borrego.

A missão surge num momento crítico: a UE enfrenta as consequências da guerra no Irão e a crise em curso no Médio Oriente, enquanto os Estados-Membros estão cada vez mais preocupados com a especulação dos preços da energia e o seu impacto nos custos de produção agrícola.

Andoni García, membro do comité de coordenador da ECVC – Coordenadora Europeia Via Campesina (organização da qual a CNA é membro), alerta que, como é habitual, as negociações carecem de transparência e as principais quotas de importação permanecem indefinidas. Explica que: “O que é evidente é que esta Comissão Europeia demonstra, mais uma vez, uma profunda desconexão com o sector agrícola.”

A Comissão Europeia está a ignorar sistematicamente as conclusões do Diálogo Estratégico sobre o Futuro da Agricultura na UE, publicado em Setembro de 2024. Este relatório, resultado de um longo processo de consenso entre todos os intervenientes na cadeia alimentar europeia, apelou explicitamente a uma reforma fundamental da política comercial da UE. No entanto, em vez de dar ouvidos a este apelo, a Comissão parece continuar com a sua habitual inacção no meio da crise.

“Utilizar a agricultura como moeda de troca em acordos comerciais multissectoriais não só contradiz as recomendações do Diálogo Estratégico, como também representa uma afronta directa aos agricultores que lutam para garantir o seu sustento, bem como à soberania alimentar na Europa. O nível de ameaça à Europa está a aumentar devido a numerosas crises geopolíticas, e a soberania alimentar nunca desempenhou um papel tão importante na segurança dos cidadãos europeus”, acrescenta García Arriola. Para a ECVC, a agricultura não tem lugar nestes acordos. As autoridades comerciais da UE devem abandonar esta abordagem e concentrar os seus esforços numa reestruturação radical da política comercial agrícola europeia.

Bruxelas, 24 de Março de 2026