2026-08-12
Os camponeses e criadores de gado enfrentam incêndios florestais cada vez mais intensos nas zonas rurais de França, Espanha, Portugal, Itália e Grécia. A Coordenadora Europeia Via Campesina alerta para as graves consequências que esta emergência climática acarreta para os camponeses e as suas comunidades e pede ajuda urgente. Muitos trabalhadores agropecuários perderam culturas, gado, hortas, pastagens e infra-estruturas agrícolas e enfrentam ainda cortes de electricidade, sistemas de rega danificados e outras consequências decorrentes desta emergência climática.
Os incêndios devastaram o Sul da Europa e foram agravados pela situação de seca prolongada e pelo calor extremo que atravessa todo o continente. Como afirmou Clémence Goujon, membro da articulação de jovens da ECVC: «Os incêndios florestais devastaram o sudoeste de França. Os nossos campos estão secos, a água escasseia e até a fauna selvagem tem dificuldades em encontrar alimento suficiente. Apesar destas dificuldades, as políticas governamentais continuam a favorecer a agro-indústria e a utilização de pesticidas, o que agrava a situação dos pequenos camponeses como eu e da minha comunidade».
Com efeito, os pequenos camponeses e as populações das zonas rurais estão a enfrentar de forma desproporcionada as consequências das crises climáticas e deparam-se com muito mais dificuldades do que os actores industriais para recuperarem das perdas catastróficas provocadas por estas crises. Isto acontece apesar de o modelo agrícola industrial desligar a agricultura das comunidades locais e aumentar a vulnerabilidade das paisagens aos incêndios, às secas e a outros fenómenos extremos.
Estes actores contam com o apoio e a cumplicidade de políticas públicas que promovem a industrialização da pecuária, as monoculturas florestais, a especulação fundiária e o abandono das terras. O impacto desproporcionado da situação sobre os pequenos e médios camponeses deve-se a políticas públicas implementadas a longo prazo, agravadas pela falta de apoios de emergência adequados para aqueles que mais deles necessitam.
A injustiça e a desigualdade no acesso à água que se verificam em toda a Europa contribuíram significativamente, por exemplo, para a intensificação dos incêndios. Isto deve-se à impossibilidade de os camponeses regarem as suas culturas, enquanto às grandes empresas é permitido continuar a captar grandes volumes de água para a exploração agrícola industrial ou para outros fins. As políticas públicas, como a PAC, também têm favorecido a industrialização e a intensificação do sector ao longo dos anos, eliminando das paisagens agrícolas árvores e sebes que proporcionam uma protecção natural contra as secas e os incêndios de rápida propagação.
As consequências desta situação fazem-se também sentir em países que ainda não foram afectados pelos incêndios. A seca, as ondas de calor, a perda de culturas, as dificuldades de acesso à água e os danos nas infra-estruturas estão a afectar os camponeses de climas tradicionalmente húmidos, o que tornará cada vez mais difícil sobreviver ao Verão.
A situação actual representa um grave risco para a própria existência dos pequenos e médios camponeses e criadores de gado europeus e exige a implementação urgente de políticas públicas que apoiem a agricultura e a pecuária de pequena e média escala e promovam a transição para a agroecologia, com o objectivo de proteger e reforçar a resiliência dos nossos campos, florestas e sistemas agro-alimentares perante a crise climática.
12 de agosto de 2026, European Coordination Via Campesina