2026-04-27

As condições necessárias para que o povo, pelo menos, possa produzir

Hugo Luís Nogueira Lobo, Agricultor, Porto da Balsa

 

Foi no tempo em que a nossa revolução de Abril era cantada, escrita uma letra que assim dizia: “A Paz, o Pão, Habitação, Saúde, Educação...”. Palavras que traduziram cinco pilares fundamentais para que um qualquer regime democrático possa ser assim considerado.

Como, perspicazmente, escreveu em tempos Grachus Babeuf: “De que vale a liberdade, quando ao nosso lado alguém passa fome?”.

Quando se deu o 25 de Abril de 1974, todos aqueles que saíram à rua para o celebrar, julgaram (talvez inocentemente), que o caminho traçado, nos levaria a uma sociedade com estes cinco pilares totalmente erigidos, fortes como uma “muralha de aço” num curto espaço de tempo. 52 anos passados, quantos destes pilares mais não são do que colunas quebradiças, incompletas, sustendo um tecto da democracia em estado periclitante, em constante ameaça de ruína...

Para este texto, foi-me lançado o desafio de dar uma opinião que incidisse particularmente no 2.º pilar, o do Pão, focando-me na perspectiva de um jovem agricultor (o que com 45 anos já diz muito da situação que vivemos). Tentarei fazê-lo e, para isso, não darei respostas, farei sim perguntas. Serão as vossas respostas que, de certo, confluirão na linha de pensamento que procuro transmitir.

- Como caracterizar políticas governativas em que não se investe o mínimo necessário para que um país possa caminhar em direcção à autossuficiência na produção de alimentos?

- Socialmente falando, um agricultor em Portugal, tem a mesma relevância de um médico, um juiz, um empresário, um banqueiro...?

- As nossas zonas rurais têm acesso a serviços públicos essenciais como à Educação, à Saúde, a Transportes, etc.?

- Perante o que conhecemos da realidade da agricultura de pequena escala no nosso país e continuando com o tipo de organização capitalista dos modos de produção, teremos uma democracia, de facto, viável?

Dizia ainda a canção: “Só há liberdade a sério quando houver, liberdade para mudar e decidir, quando pertencer ao povo, o que o povo produzir”.

Longe estamos, mas mais perto ficaríamos se proporcionássemos as condições necessárias para que o povo, pelo menos, possa produzir.

A luta pela mudança da sociedade é, também, contribuição imprescindível para que cada vez mais jovens vejam no trabalho com a terra uma escolha de vida possível, com uma qualidade de vida sóbria, mas digna e, acima de tudo, mais justa.