Sementes Tradicionais: notas introdutórias ao projecto RurAlentejo/ADeRavis

Por Joaquim Pífano e Vitor Lamberto

Desde que o Homem abandonou a vida nómada e se fixou em moradias que a agricultura passou a fazer parte do seu quotidiano.

Desde esses tempos que às sementes é reconhecida uma importância fundamental enquanto entidades com potencial para regenerar as novas colheitas: frutos, vegetais, grãos, com características semelhantes às da geração anterior que lhes deram origem. Eram por isso veneradas, guardadas e transaccionadas como verdadeiros tesouros.

Nos séculos que se seguiram, as sementes, mercê das migrações humanas, viajaram e disseminaram-se também elas um pouco por todo o globo, adaptando-se aos diversos climas e gerando a enorme diversidade de alimentos agrícolas que hoje chega à nossa mesa.

Desde a chamada Revolução Verde, de há poucas décadas atrás, até as nossos dias, que as conhecidas multinacionais do agronegócio tentam constantemente influenciar e pressionar os governos para a privatização das ditas sementes, chegando ao cúmulo de criminalizar os agricultores que as possuem, utilizam e trocam livremente desde há muitas gerações. No entanto, graças à luta de muitas associações de pequenos agricultores (e.g. RurAlentejo) e associações de desenvolvimento local (e.g. ADeRAvis) de índole ambientalista e outras (e.g. Slow Food) em todo o mundo, governos e multinacionais do agronegócio foram forçados a recuar, mantendo as sementes fora do alcance das privatizações e monopólios.

Também nas últimas décadas, um pouco por todo o mundo, têm vindo a surgir associações em defesa das sementes e dos modos de produção tradicionais característicos e adaptados a cada região, sendo cada vez maior o número de adeptos desta nova filosofia agrícola. É fácil perceber porquê… Afinal os agricultores ancestrais sabiam o que faziam: se mantiveram e seleccionaram durante tantos anos determinadas variedades é porque decerto elas teriam as melhores características para os fins a que se destinavam e melhor se adaptavam às condições edafo-climáticas do local onde eram cultivadas. Boa parte dessas sementes/culturas estavam adaptadas ao regime de sequeiro, dada a inacessibilidade dos agricultores de outrora a sistemas de rega eficazes, até porque nesse tempo nem sequer existiam. Com as actuais alterações climáticas, com o aquecimento global e as chuvas menos frequentes não seria de pensar na reutilização de sementes com tais características?

E o facto de boa parte dos produtos oriundos dessas sementes e dos modos de produção tradicionais apresentarem notórias características de auto-conservação não será um excelente argumento económico para a reabilitação dessas culturas?

Desde há dois anos que a RurAlentejo e a ADeRAvis iniciaram um processo de recuperação de sementes ditas tradicionais entre os pequenos agricultores da região. É objectivo destas entidades conhecer, caracterizar, reproduzir, promover e redistribuir as referidas sementes pelos hortelões e agricultores da região.

Tal distribuição das sementes será feita sem quaisquer custos para o beneficiado, sendo que o mesmo apenas se compromete a devolver à RurAlentejo/ADeRAvis uma quantidade de sementes igual ou superior à que recebeu na campanha anterior. Desta forma e mantendo um registo dos agricultores aderentes poderemos sempre ampliar o número de beneficiários e em última análise evitar que tais variedades de plantas tradicionais se venham a perder.

Neste contexto, a Slow Food (associação sem fins lucrativos surgida em 1986, com mais de 100.000 membros distribuídos por mais de 100 países), movimento global que se dirige a todos aqueles que se preocupam com a alimentação, nomeadamente com o seu impacte sobre o planeta Terra, as comunidades locais e os consumidores e restantes seres vivos, na defesa da tradição, da qualidade, da biodiversidade e do bem-estar, abraçou, desde longa data, a defesa das sementes tradicionais… E porquê? Bem, as sementes tradicionais defendem a diversidade, a base da nossa alimentação, promovendo a nossa identidade, a nossa sobrevivência e a do mundo que conhecemos… A Slow Food sabe que o fast life e o fast food e a agro-indústria homogeneízam o gosto e corroem, a nossa saúde, a economia rural, a soberania alimentar, o ambiente… e a nossa vasta herança gastronómica!

E no centro da nossa cultura gastronómica estão as sementes tradicionais! Sim, as nossas sementes, sobre as quais pouco pensamos, apesar de serem parte integral de cada uma das nossas refeições! Numa altura em que se fala muito na importância do turismo em Portugal, importa ter presente que a promoção da autenticidade/genuinidade dos territórios e do seu património terá que incluir nos sabores aí degustados o uso de ingredientes locais, específicos de cada região, que obviamente dependem de algo tão singelo (aparentemente) como as nossas sementes tradicionais! E quando as alterações climáticas fazem sentir-se cada vez mais, nomeadamente a seca, as sementes tradicionais assumem importância extrema no seu combate, dada a sua frequente rusticidade e a menor exigência em termos de água.

Todavia, o crescimento continuado da agro-indústria e a sua necessidade de uniformidade, homogeneização e focagem no lucro têm originado a concentração da produção em algumas espécies e a redução no número de variedades, com uma perigosa redução da biodiversidade: das 80.000 espécies comestíveis disponíveis para a produção alimentar, somente 150 são actualmente cultivadas, 8 das quais vendidas a uma escala global.

Tenhamos presente que somente a defesa das nossas sementes tradicionais defenderá uma história, a dos nossos sabores, e saberes associados, e a dos nossos singulares terroirs - conjunto de factores naturais e humanos que dão a um espaço produtivo (e aos seus produtos) as suas características únicas (e.g. paisagem, solo, água, clima, técnicas, conhecimento artesanal, cultura) -, resultado do cruzamento entre territórios e culturas (e.g. litoral e interior; Norte e Sul; Mediterrâneo e Atlântico; romanos, judeus, cristãos e muçulmanos; Portugal e além-mar)…

Assim, temos o dever e a responsabilidade as proteger e preservar as sementes de modo a garantir a riqueza e a variedade da nossa vasta cultura gastronómica nas nossas refeições, e salvaguardar a herança de diversidade biológica e cultural que incorporam. As sementes de todas as diversas variedades são o passado, o presente e o futuro da vida e deverão ser protegidas, independentemente do seu valor económico actual, pois poderão ser portadoras de características fundamentais potencialmente úteis no futuro… Sobretudo aquelas sementes que são nossas, que os nossos antepassados souberam defender e valorizar, em interacção com o nosso território – um património único, uma história que o projecto de sementes tradicionais RurAlentejo/ADeRAvis pretende proteger e promover, em defesa da biodiversidade (agrícola e alimentar), de uma produção alimentar de pequena escala respeitadora do ambiente/mais adequada ao território, da nossa soberania alimentar e de culturas e saberes tradicionais, garantia de sobrevivência de métodos tradicionais e sustentáveis de produção, raças nativas, espécies e variedades de alimentos, contribuição para a preservação e protecção da paisagem local e da ruralidade/regionalidade, importante para a diferenciação (aquilo que não existe noutros locais) como factor de atractividade turística… 




"Tomata de Pendurar": Tomate assim designado nesta região do Alentejo, conservado desta forma podia ser consumido ao fim de vários meses mantendo as características organolépticas. De notar na última imagem o "cacho" de tomate revestido por teias tecidas pelo aranhiço vermelho e que segundo as populações rurais de outros tempos ajudariam a conservar as "tomatas".





"Melão Pêlo de Rato": Melão de sequeiro, também podia ser conservado pendurado do tecto, durando alguns meses e chegava a ser consumido até ao mês de Março ou mais tarde.



- mm
- pp