Incêndios Florestais-Rurais e os dias, meses e anos “after” (depois)…

Por João Dinis
Sim, a tragédia anunciada, entretanto vista e revista, provocada pelos Incêndios Florestais-Rurais, justifica agora que também se antevejam… os dias «seguintes»… os meses «seguintes»… os anos «seguintes»… e mesmo que em projecções gerais!

Mas ainda podemos começar por dizer que antes deste Verão (18 Junho) e início de Outono (15 de Outubro) a Região Centro de – Pedrógão Grande – Leiria (incluindo Pinhal de Leiria) – Castelo Branco – Coimbra – Viseu – Guarda – era uma «coisa» apesar das dificuldades de território «interior» e da Seca, e que depois de 15 e 16 de Outubro de 2017 é outra «coisa»: - mais triste – mais escura-cinza – mais pobre – mais deprimente!

Vai ser preciso mobilizar todos os recursos (financeiros – estruturais) – toda a energia disponível (biológica a doutra natureza) - todas as reservas (físicas – anímicas) – para nos fazer renascer das cinzas e dos lutos. Enfim, para emergirmos deste desastre brutal, mais reconfortados e ainda mais solidários. Capazes de recuperar a «verde» esperança em dias e noites melhores. Para podermos finalmente assegurar que nunca mais se repita algo sequer parecido! Em nome da própria vida!

Perspectivas «naturais» após os Incêndios

Rebanhos - Pastos – ERVAS

As ERVAS estão a crescer, verdes… Havendo mais humidade (chuva), vai haver Pastos de ERVAS e outros rebentos…em abundância… Porém, como se vai manter muita CINZA em cima do terreno, o Gado – até as Cabras – pode sofrer «doença» (envenenamento) ao comer estas ERVAS, assim ainda muito próximas aos solos com muitas cinzas…

Não há ou é muito caro outro tipo de alimentação mais disponível, sendo que as Ovelhas Bordaleiras para Queijo Serra da Estrela Certificado não devem comer rações…

Ou seja, na dificuldade acrescida, os Animais – Ovinos e Caprinos – vão mesmo para os Pastos comer Erva e «snifar» cinza…

Vai ser complicada a reposição dos efectivos Pecuários – a começar pelos de Ovelhas e Cabras – com prováveis problemas acrescidos até ao nível da Sanidade Animal e do Controlo Genético das Raças (e do controlo das traficâncias…).

Eucaliptais

Vão regenerar - em um ano ou dois anos – na ordem de 90% dos «ardidos»… Ou seja, e se não houver grandes alterações nas políticas agro-florestais, daqui a meia dúzia de anos os Eucaliptais (e as Mimosas…) estarão outra vez «prontinhos» para voltar a arder, quando silvas, fetos, giestas e outros matos também recuperarem… E logo que se repitam condições atmosféricas propícias aos Incêndios… Ou seja, estamos já a «produzir» mais Floresta…para arder!

É necessário reprogramar, sim, mas alterando profundamente muita da «filosofia» de que enfermam os actuais «PROF-Planos Regionais de Ordenamento Florestal» onde é suposto virem a enquadrar-se os «Planos Directores Municipais” na vertente específica da Floresta. O receio é que estas «revisões» dos PROF que, dizem-nos, estão agora a ser feitas (?), afinal, venham a consagrar, e até a agravar, aquilo que de mau já antes estava feito na Floresta Nacional, mantendo o interesse estratégico da grande indústria das Fileiras Florestais a presidir aos critérios e fórmulas a definir nas ditas «revisões» dos PROF.

Pinhais

Uma boa parte, está «morta», não recupera e se ficar «plantada» vai apodrecer e cair ao chão… Novas plantações de Pinhal? São muito duvidosas… As Indústrias de Serração de Madeira (mesmo as que forem reconstruídas…) vão ficar sem Pinhal, pela Região…

Por um correcto Ordenamento Florestal – primeira condição na Prevenção estrutural de Incêndios Florestais.

Mas também era agora, e como já atrás se disse, que seria mais possível partir organizadamente para o terreno, a «impor» um correcto Ordenamento Florestal e a rever os PROF – Planos Regionais de Ordenamento Florestal, que se repercutissem, a preceito, nos Planos Directores Municipais e suas componentes florestais. Para, assim, se evitar o plantio ou o replantio (que já ameaça…) de espécies arbóreas tão combustíveis e em contínuo no terreno como se tem apresentado sobretudo o «rei» Eucalipto. Para se plantar outras espécies mais resistentes ao Fogo. Para se ordenar uma Floresta Multifuncional. Ao mesmo tempo, o aumento do Preço da Madeira na Produção é outra condição indispensável a obter para fazer aumentar o interesse económico pela exploração florestal mais adequada.

Olivais Tradicionais

Boa parte das Oliveiras «chamuscadas» vai recuperar. As mais pequenas, mais novas, aguentam-se melhor que as mais velhas muitas das quais caíram ao chão. As mais chamuscadas vão ser cortadas – por baixo - e se não tiverem ardido completamente, vão rebentar em «filhos» que daqui a quatro/cinco anos vão estar a dar boa azeitona…
Ou seja, aqui, o prejuízo maior é pela não-produção em quatro ou seis anos – perda de rendimentos - sendo que estas Oliveiras tradicionais dão Azeitona, normalmente, ano sim – ano não…

Vinhas

Arderam as vinhas mais velhas e menos cuidadas e também algumas Vinhas «das boas». Outras apanharam «escaldões» e recuperam. Há inclinação para se utilizar o VITIS com tal objectivo, inclusive para compensar a perda (em três anos) de rendimentos.

Erosão / Poluição

Quando vierem chuvadas – e muito convém que venham… - as cinzas e outros destroços vão «derreter-se» e correr montes e vales até pararem nas linhas de água, nas poças, nas represas … Ou seja, a água «enegrecida» vai então chegar às torneiras domésticas…e em algumas outras regiões vai até faltar a curto prazo…

As terras vão continuar a descer montes abaixo. É a erosão acelerada... Há anúncio de um «programa» específico para dar combate a esta tendência «em colaboração com as Autarquias».

Alterações climáticas // Secas // Fundo Ambiental

Cada vez há menos «verde»… menos árvores… mais calor… Logo, cada vez menos chuva… Logo mais Secas… Logo, novos, extensos e provavelmente violentos Incêndios Florestais/Rurais…

O actual Fundo Ambiental – gerido pelo Ministério do Ambiente – deverá ser prioritariamente aplicado no combate à tendência (que se agrava) para as mutações (alterações) climáticas. Neste âmbito, a Floresta Multifuncional – não-industrial ou não-intensiva – deveria ficar na linha da frente dos apoios. Como é sabido, as árvores retêm muito Carbono…mas também o «devolvem» à atmosfera em quantidades enormes sobretudo quando há um Incêndio Florestal, logo…

Por Indemnizações, imediatas, aos pequenos e médios Agricultores TAMBÉM por perda (prolongada…) de Rendimentos com a Seca e sobretudo até com os Incêndios Florestais.

Eis pois uma condição indispensável à retoma e à defesa da Agricultura Familiar e da Floresta Multifuncional…logo imprescindível à defesa do nosso Mundo Rural.

Pela simplificação e adequação de normas e procedimentos no acesso às (parcas…) Ajudas já definidas para o sector.

Reitera-se que são insatisfatórias, por insuficientes, as medidas concretas já anunciadas pelo Ministério da Agricultura e pelo Governo para acudir ao desastre económico e ambiental provocado pela Seca e pelos Incêndios.
Entretanto, no terreno, e já a gerar instabilidade social, reina agora grande confusão provocada pelas decisões e informações por vezes até contraditórias, particularmente no caso dos Incêndios de Outubro. Acrescem a burocratização dos processos de acesso às parcas ajudas já definidas e a falta de recursos humanos das Zonas Agrárias que não têm mãos a medir, tendo também em conta os prazos de 30 de Novembro para as candidaturas - «simplificadas» - às ajudas antes só até 1 053 Euros e agora autorizadas até 5 000 Euros, e também até 15 de Dezembro para as outras Ajudas PDR 2020.

Caso o Ministério da Agricultura não resolva – já – esta situação preocupante, então milhares de pequenos e médios Agricultores vão ser eliminados, “na secretaria”, logo na fase de acesso às parcas Ajudas supostamente destinadas a aliviar prejuízos com os Incêndios Florestais de Outubro passado.

Pelo “Estatuto da Agricultura Familiar Portuguesa”

Ao mesmo tempo, é indispensável definir e financiar – pelo Orçamento de Estado e pelo da União Europeia – o «Estatuto da Agricultura Familiar Portuguesa» e a rede de organizações agro-florestais ligadas ao Mundo Rural.

Por onde é que andam o Orçamento de Estado e a «solidariedade» da União Europeia??

Perante a tragédia e o desastre, o Governo vai ter que abrir «cordões à bolsa» – leia-se Orçamento de Estado – e amanhe-se lá o Governo como quiser…

Pois que atire o «défice» para onde este tiver de ir… Pois que «poupe» nos gastos com as Forças Armadas nas guerras dos «outros» a pretexto da NATO… Pois que mobilize um ou dois mil milhões de Euros para acudir a este desastre, afinal como foi capaz de mobilizar, e sem piscar os olhos, para «acudir» a um ou dois Bancos prenhes de vigarices…

Pois que em vez de «acudir» ao FMI com o agora anunciado pagamento ANTECIPADO de uma «tranche» da famosa «dívida» a esta instituição, pois que mobilize essa verba para acudir às nossas Gentes e ao Mundo Rural Português em tempos tão difíceis! Pois que ponha as Finanças ao serviço das Pessoas e não o contrário!

Ou porque é que a União Europeia não «perdoa», pelo menos, uma boa parte da «dívida» portuguesa, por exemplo ao Banco Central Europeu?!...

Ai, ai, Autarquias, «não se ponham a pau, não» e logo verão (sobretudo no Verão)

Se estivermos atentos ao que o Governo diz, escreve e insinua, as Autarquias – os Municípios e respectivos Orçamentos – vão servir para «aparar» novas e pesadas responsabilidades a vários níveis nos quais ganhará relevo a Floresta e seus (e nossos) problemas estruturais. Sim, há uma evidente e deliberada «municipalização» dos problemas da Floresta Nacional e dos respectivo «custos» financeiros e sociais.

Sim, é isso mesmo que está plasmado na chamada «Reforma das Florestas»; que está previsto no «Programa Nacional para a Coesão Territorial»; que está acontecer já no «rescaldo» dos Incêndios Florestais deste ano e na crise hídrica provocada pela Seca persistente.

É óbvio que um Presidente de Câmara ou de Junta de Freguesia, a começar pelos que tenham andado envolvidos nestes pavorosos Incêndios Florestais / Rurais, é óbvio que não terão «coragem», pelo menos no curto prazo, para dizer que «não» às novas e onerosas responsabilidades institucionais com que o Governo os «presenteia»… E também é óbvio que o Governo sabe disso muito bem e que, também por isso, esteja, já hoje, a «abusar» dos recursos municipais. Mais à frente, as Autarquias vão ainda «apanhar» com o odioso das situações, sobretudo se forem para o terreno, com a tal «mão pesada», a baterem nos pequenos e médios Proprietários e Produtores Florestais – como preconiza este «sistema» tão perverso – alegadamente por eles não manterem «limpas» as suas parcelas rústicas e urbanas…

Entretanto, sobrecarregando (injustamente) os recursos municipais, o Governo «poupa» nos recursos centrais para assim «conter o (maldito!...) défice»… Ou seja, as Pessoas continuam a servir as Finanças quando aquilo que deveria acontecer era as Finanças servirem as Pessoas!

Ai, ai… Atenção, Autarquias e Autarcas… Se não, logo verão…sobretudo no Verão…

20 de Novembro de 2017
João Dinis